Artigos, Notícias › 09/03/2021

O dilema das redes

Por Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório
Natal-RN

Esse é o título de um documentário da Netflix, que recomendo a todos. Penso que ele descreve bem a situação atual da força de manipulação que têm as Redes Sociais. Essas são, sem dúvida, o maior fator de mudança que temos em nossas relações humanas. Uma época de mudanças, e uma mudança de época é demarcada pela grande revolução que a sociedade contemporânea tem vivido por causa das mídias sociais.

O Papa Francisco faz uma descrição bem realista sobre a ilusão da comunicação na sua última encíclica de doutrina social. Segundo ele, “tudo se torna uma espécie de espetáculo que pode ser espiado, observado, e a vida acaba exposta a um controle constante. Na comunicação digital, quer-se mostrar tudo, e cada indivíduo torna-se objeto de olhares que esquadrinham, desnudam e divulgam, muitas vezes anonimamente. Esvai-se o respeito pelo outro e, assim, ao mesmo tempo que o apago, ignoro e mantenho afastado, posso despudoradamente invadir até o mais recôndito da sua vida.” E assevera o Pontífice: “A conexão digital não é suficiente para construir pontes, não é capaz de unir a humanidade” (FT, 42 e 43).

É profético e perfurante a admoestação de Francisco. O jogo proposital de manipulação perpetrado pelas mídias tem por finalidade a manutenção do domínio psicológico das pessoas. Elas existem tendo como fogo o controle estrutural dos humanos, segundo o documentário. Chega a ser estarrecedor. As pessoas são conduzidas como fantoches a fazerem os caminhos que os poucos controles de dados digitais vão orientando. É uma corrida pela propaganda, pelo lucro na vendagem de propagandas. Na Era da comunicação, os criadores e donos das novas mídias são bilionários. Quanto mais pessoas dependentes, mais oportunidades são tidas na veiculação de negócios. A própria democracia, não é mais consequência da liberdade popular, mas dos encaminhamentos feitos pelos senhores das novas mídias.

Essa nova construção sistêmica corrobora ainda mais as características do mundo globalizado. É a mundialização das informações, que podem ser “verdades, ou não”. Ganham espaço as fake News, que são construções da mentira, que visam a manipulação e apresentação de algo que querem que seja assumido pela massa inconsciente e desinformada. É o tempo da negação da verdade. O que é posto é imprevisível. A capacidade de inteligir não pode ser percebida pela quantidade de informação, e sim pela capacidade de sabedoria. O Papa Francisco ainda assinala que “a verdadeira sabedoria pressupõe o encontro com a realidade. Hoje, porém, tudo se pode produzir, dissimular, modificar. Isso faz com que o encontro direto com as limitações da realidade se torne insuportável” (FT, 47).

O vício nas mídias sociais já se tornou uma questão de saúde. Existem muitas pessoas dependentes delas. Em todas as áreas e faixas etárias são encontradas pessoas viciadas em redes sociais. Já existem muitas pessoas sendo tratadas com distúrbios psicológicos por causa de sua compulsividade no uso destas ferramentas. Como observamos no documentário, é algo muito sutil. Basta que paremos para observar quanto tempo cada um gasta usando as redes.

Na Era do Hipercapitalismo, estas realidades existem com a capacidade de consumo que cada país tem. No documentário, a relação entre política e economia é transparente. Esses dois fenômenos humanos aparecem como indissociáveis. Os mecanismos da existência de ambos encontram amparo para a propagação dos seus ideais e valores nas novas redes de informação e formatação. O dilema das redes é, na verdade, não um paradoxo; mas uma conveniência que veio como força propulsora desta denominação Pós-moderna deste Ultra-capitalismo.

Enfim, estas realidades estão aí. Nós as usamos. Têm suas potencialidades e encantos. São deveras viciantes. São preenchedoras das tendências humanas. Por isso, precisam ser usadas com responsabilidade e com consideração pelo outro. Não podem ser utilizadas para violentar a dignidade das pessoas. Promover a calúnia, a difamação e o perjúrio. Em tempos sombrios, por causa desta pestilência que nos assola, estejamos atentos ao reto, livre e consciente uso das mídias sociais. Assim o seja!

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.

X