Notícias, Notícias gerais › 27/06/2017

O protagonismo dos leigos: liberdade ou autonomia

Por Pe. Matias SoaresPe. Matias Soares2 (Cacilda Medeiros) (15)
Do clero da Arquidiocese de Natal, estudando em Roma

Uma reflexão que tenho feito, motivado pelo estudo de um dos documentos do Concílio Vaticano II, a Apostolicam Actuositatem, que trata da missão dos fiéis leigos na Igreja e no Mundo, tem me instigado cada vez mais a tornar sensível algumas ideias sobre a situação da relação e do testemunho dos fiéis lados com a Igreja e o Mundo na Posmodernidade.

O Concílio valorizou muito a responsabilidade e a liberdade dos fiéis leigos no exercício da sua missão na Igreja e no Mundo. Ensinou que todos fazem parte do único povo de Deus, pelo batismo. Tenhamos presente que isso representou um avanço fantástico na estruturação da identidade da Igreja. A imagem utilizada pelo Papa Francisco é de que a Igreja passa a ser uma pirâmide invertida (Papa Francisco, 17/10/2015). Esse discurso do Pontífice, na comemoração do Cinquentenário da instituição do sínodo dos bispos, é fundamental para o que podemos conceber como deverá ser o caminhar da Igreja neste terceiro milênio. A Igreja reconhece a liberdade que não tira a autonomia de nenhum dos membros da Igreja, mas que a fortalece. Leiamos e aprofundemos esse discurso que é emblemático para essa temática.

Na Apostolicam Actuositatem há um denso ensinamento sobre como deve ser a relação entre os fiéis e a Hierarquia. Eis um dos pontos: “o apostolado dos leigos, quer ele seja exercido pelos fiéis individualmente quer em associação, deve-se integrar ordenadamente no apostolado de toda a Igreja. Mais ainda, a união com aqueles que o Espírito Santo pôs à frente da Igreja de Deus (cfr. At. 20,28) constitui elemento essencial do apostolado cristão. E não é menos necessária a cooperação entre as diversas iniciativas apostólicas, que devem ser convenientemente dirigidas pela Hierarquia”(n. 23). Vejamos que a relevância é de incentivo e de integração na vida dinâmica e ativa da Igreja, que torne possível um caminho de comunhão e protagonismo de todos os envolvidos. Mais a frente, continuam os Padres sinodais: “Compete à Hierarquia fomentar o apostolado dos leigos, fornecer os princípios e os auxílios espirituais, ordenar para bem comum da Igreja o exercício do mesmo apostolado, e vigiar para que se conservem a doutrina e a ordem”(n. 24). Todavia, o reconhecimento da missão e da liberdade dos fiéis leigos na vida da Igreja, não significa que o caminho sinodal seja negado, nem, muito menos, violentado com a falsa compreensão do que seja a autonomia ou a liberdade.

Atualmente, há a constatação de que há um cisma submerso na vida da Igreja por parte de muitos membros da comunidade cristã, que não consideram seus ensinamentos doutrinais e morais (Cf. Pietro Prini. Lo Scisma Sommerso). Essa percepção da realidade exige a atenção aos sinais dos tempos e, muito especialmente, a concepção de autonomia e liberdade que penetrou na cultura contemporânea e sua consequência no ambiente eclesial. A ideia de autonomia pensada pelo Iluminismo, que pregou a libertação do sujeito de todos os meios e instituições exteriores à sua condição subjetiva, tem impactado muito fortemente as relações eclesiais. Para Kant, pensador máximo do tempo das Luzes, essa autonomia não precisava considerar os vínculos com o Estado, nem a Igreja. O individuo tinha que ser adulto. O que vivemos tem suas bases nestas concepções.

Hoje, existe uma antropologia pós-moderna, que mereceria um aprofundamento; todavia, a preocupação é dialética, para que possamos entender o tempo presente e seus desafios no modo com o qual as pessoas, e aqui entram todos os membros da comunidade eclesial, mantêm a relação com os outros e as instituições, numa época da liquidez dos fundamentos da Sociedade, incluindo o próprio Ser Humano. É notório que na Posmodernidade o que está prevalecendo é a ideia de indivíduo, mais do que a de pessoa. O pensador Romano Guardini faz uma análise relevante sobre a questão, diferenciado o significado de indivíduo e pessoa (Cf. R. Guardini. “Persona e Personalità”, pág. 21-31). Na Posmodernidade a pessoa é considerada objetualmente como indivíduo. O paradigma sociológico e biológico se sobrepõe ao subjetivo e espiritual. A pessoa torna-se individuo porque não é fim em si, mas meio. Configura-se uma “despersonalização” do sujeito. O ponto a quero chegar é que o individuo pós-moderno quer a autonomia, enquanto que a Igreja chama a atenção para a liberdade que é própria da pessoa em relação, consigo e com os demais. Sem consideração pelo outro, não há possibilidade de uma autonomia saudável e dignificante da condição humana, que se concretiza em Sociedade e nos vários contextos relacionais.

Neste sentido, a impressão que temos é que há um distanciamento do que esperava e desejava o Concílio Vaticano II para as pessoas que são membros da comunidade eclesial. Há uma imaturidade e limitação na concepção de liberdade na consciência de muitos Leigos e um modo individualista de conceber a liberdade. Como em tantos outros aspectos, esse protagonismo dos fiéis na Igreja e no Mundo está muito aquém do que era esperado acontecer na Modernidade, e agora nessa Hipermodernidade. Por isso, o Papa Francisco tem lembrado e até denunciado o clericalismo eclesial, que não é só culpa do Clero; mas do próprio Laicato que não compreendeu ainda qual seja a sua missão e responsabilidade na Igreja e no Mundo. Uns tornam-se clericalizados, condenando o Mundo, e outros secularizados demais, negando o que propõe a Igreja e o Evangelho.

O Papa Francisco, falando a um grupo de fiéis, lembrou a estes como deve ser a relação dos mesmos com os sacerdotes, chamando em causa o sentido da amizade: “um amigo me ouve profundamente, sabe ir além das palavras, é misericordioso com meus defeitos, é livre de preconceitos, não concorda sempre comigo, mas justamente por me querer bem, me diz sinceramente aonde discorda; está pronto a ajudar-me cada vez que caio” (Cf. Discurso a Serra Clube, 23/06/17). Cito essa passagem para confirmar e reiterar que a noção de protagonismo e autonomia na relação dos fiéis com os ministros ordenados não pode ser de confronto, nem desrespeito; mas de valorização e de importância de cada um na missão da Igreja. Pois, o que estamos percebendo nos últimos tempos, principalmente com as possibilidades de expressão e manifestação de pensamento, que foram obtidas pela utilização das Mídias Sociais, é de confusão e posturas que ferem completamente o espírito eclesial e cristão.

Longe de ter uma concepção minimalista do papel e da importância dos Leigos na vida da Igreja, que por sinal foi elaborada pelo modernismo, o que é preciso ter presente é um aprofundamento da questão. O Papa Francisco está dando orientações preciosíssimas e mostrando que o caminho é o da sinodalidade eclesial. Perceber o que está acontecendo na Igreja, em algumas situações é preocupante. É como se os seus membros estivessem no Mundo e fossem do Mundo; ou seja, esquecessem que a comunhão passa pelo testemunho de amor a Deus e ao próximo, começando dentro da própria comunidade eclesial. A liberdade e o protagonismo cristãos precisam ser o modo de ser e de existir do discípulo missionário de Jesus Cristo. Está aí a consistência da autonomia e da liberdade dos fiéis batizados. Parece que o paradigma político partidário, com suas polarizações, está tendo mais poder de atração do que a palavra de Deus e a Tradição Viva da Igreja, infelizmente!

A obediência, o respeito e a espiritualidade eclesiais são esquecidos quando estão em jogo os interesses individuais e grupais. Alguns são de Pedro, outros de Paulo, outros de Apolo, e assim sucessivamente; mas muitos estão esquecendo que todos nós devemos ser de Jesus Cristo, que pela Sucessão Apostólica, nos deixou a garantia da certeza da fé que professamos e da unidade que não podemos trair, nem tentar destruir com os nossos egoísmos e individualismos.

Por fim, que possamos avançar na busca pela maturidade eclesial e cristã! Nas comunidades eclesiais, fomentemos a formação permanente, a missão e a mística cristã. O protagonismo dos fiéis e demais membros da Igreja só acontecerá pela conversão a Jesus Cristo e por esta busca de compreensão da missão e do papel da Igreja, ontem, hoje e sempre. Assim o seja!

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