Artigos, Notícias › 26/11/2021

O suicídio: Um drama existencial

Por Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo  Afonso Maria de Ligório – Mirassol – Natal/RN

No meio do Clero católico tem surgido um fenômeno recente, que tem gerado uma comoção inusitada entre nós cristãos católicos, a saber: o suicídio de Presbíteros. Mais recentemente chegaram à soma de dez, em todo o Brasil. Com estas linhas, tenho o intuito de afirmar e provocar o debate sentenciando que o que acontece em nosso meio eclesiástico, não é diferente do que sucede nas demais camadas sociais; ou seja, o drama é humano. Pesquisemos o número de suicídios que aconteceram no meio civil e veremos que os mesmos fatos sociais não divergem do que acontece no mundo eclesiástico.

Sociólogos como E. Durkheim e K. Marx têm estudos sobre o tema que podem ser leituras preciosas neste momento crítico da história, em que esse fato social voltou a bater às portas das famílias e demais instituições. A situação contemporânea tem um fenômeno novo, que são as sequelas físicas, psicológicas e espirituais, deixadas pela famigerada pandemia. Quando estivermos conversando sobre esse drama, consideremos esta novidade. Essa pestilência trouxe um turbilhão de consequências ainda não fáceis de serem alcançadas.

Um autor a quem estou pensando em recorrer na atual ordem sistêmica é o grande teórico da logoterapia: V. Frankl. Ele é o grande austríaco que viveu nos campos de concentração alemães da II Grande Guerra. Com ele podemos inferir que a crise de sentido é um dos grandes dilemas vividos pela condição humana. Confesso que tenho insights constantes, que levam-me a pensar que vivemos o aprofundamento das grandes crises existenciais, estruturais e sociais que seguiram-se ao pós-guerra. O ser humano necessita urgentemente redescobrir “algo novo” que possibilite-lhe retomar, de cabeça erguida, o sentido da história. Para nós, Cristãos, essa Boa Noticia é Jesus Cristo, Jesus de Nazaré, Filho de Deus.

Os irmãos Presbíteros do Brasil precisam estar situados neste tempo e neste espaço. A problemática é humana; sempre será demasiadamente humana. Não é só problema teológico; não é simplesmente crise de fé. Como também pode ser! Analisemos os casos e os contextos. Temos que racionalizar a questão. Respostas evasivas e simplistas não darão conta do ponto focal. O que temos que ter presente é a busca das causas mais profundas deste tema tão complexo. A humanidade que hoje é consumista, materialista e supérflua, é a mesma da dos Presbíteros. Muitos deles que perderam o sentido da existência e da identidade. Outros ainda que tendencialmente são propensos ao cometimento deste lamentável ato.

Penso, sem dúvida, que a Humanidade precisa fazer a experiência da profunda conversão à fraternidade e à amizade social (PP Francisco). No meio presbiteral é questão de sobrevivência. Os seminários são chamados urgentemente a serem escolas de discípulos missionários. Devem ser casas de formação de seres humanos integrados e potencializados à vivência cristã. Muitos Presbíteros precisam fazer uma opção pelo Evangelho. Há vários, entre nós, que não vivem como Cristãos. Nos Presbitérios da Igreja no Brasil, mais especificamente, temos que favorecer ainda mais a solidariedade, a fraternidade, a justiça, a verdade, a misericórdia e a proximidade.

Enfim, em poucas palavras quero dizer que tento ver o fenômeno do suicídio entre os Presbíteros da Igreja Católica no Brasil como algo que pode interpretado por pessoa e socialmente. É hora de escuta e maior preocupação com o problema na sua amplitude. Uma atenção maior aos sinais de tendências suicidas já desde à seleção antes de entrar nos seminários. Uma melhor compreensão da missão da Pastoral Presbiteral, não como canal de promoção de esquizofrenias psicológicos e estruturais, e sim como via de cuidado dos Presbíteros entre si. A própria CNBB, que poderia fazer um estudo mais pormenorizado da questão, ajudando assim, no conhecimento e prevenção dos porquês do cometimento do suicídio. Do mais, todos somos chamados a nos preocupar com o aumento destes casos na Igreja e na Sociedade. É algo agradável a Deus. Assim o seja!

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