Artigos, Notícias › 09/03/2021

Papa Francisco no Iraque: um sopro de esperança para a humanidade

Por Ciáxares Carvalho e Flávio Gameleira
Escola da Fé São Frei Galvão da Paróquia de São Francisco de Assis, Cidade Satélite, Natal

Entre os dias 5 e 8 deste mês de março, o Papa Francisco visita o Iraque. Tal passagem tem, além de um profundo aspecto de fraternidade e súplica pela paz no mundo, um valor histórico profundo, dada a continuidade da aproximação do pontífice com o Oriente Médio, iniciada em 2019 com sua ida a Jerusalém, 800 anos após o encontro de São Francisco de Assis com o sultão Malek Al-Kamel no Egito. Configura-se, portanto, como a continuidade da celebração e o apelo pela permanência do diálogo entre católicos e o povo islâmico.

São Francisco, após sua visita ao Egito, por muitos considerada um dos atos de paz entre cristãos e muçulmanos mais importantes da história e ponto de origem da presença franciscana na Terra Santa, deixou o legado do método de evangelização por meio do testemunho de vida e de anúncio da Palavra, inspirando católicos até hoje.

Na visita do Papa Francisco a Jerusalém, em 2019, o apelo da Igreja Católica por ele representada foi pela preservação da sacralidade e unicidade da Terra Santa, pelo seu reconhecimento como patrimônio comum das três religiões monoteístas, como símbolo da coexistência multirreligiosa pacífica e para que se estabeleça o livre acesso de cristãos, judeus e muçulmanos, considerando os aspectos espirituais e culturais daquela região.

Antes de iniciar a viagem ao Iraque, Papa Francisco, ao lembrar de Abraão como pai que reúne em uma só família cristãos, muçulmanos e judeus, disse: “Irmãos e irmãs de todas as tradições religiosas, desta terra, há milênios, Abraão começou a sua viagem. Hoje cabe a nós continuá-la, com o mesmo espírito, caminhando juntos pelos caminhos da paz!” A primeira visita de um papa ao Iraque, país situado na Mesopotâmia, região culturalmente importante para a humanidade, devastado por guerras, fundamentalismo religioso e terrorismo, acontece em um contexto conspícuo da humanidade, quando uma  pandemia assola centenas de países, trazendo destruição e aumentando a desigualdade entre os povos. Neste sentido, somos todos inspirados pela palavra do Santo Padre a olharmos para nosso semelhante com os olhos da empatia, da caridade e da esperança, princípios fundamentais para o estabelecimento da paz pregada por Jesus Cristo.

O lema da 33ª Viagem Apostólica do Papa Francisco é “Sois todos irmãos” (Mt, 23,8). A referência do pontífice é pela pacificação da comunidade internacional e pela união dos povos, sobretudo aos países que, ao longo da história, têm estabelecido o extremismo, a intolerância e a violência no Iraque e no Oriente Médio por meio da imposição de interesses políticos e ideológicos. Também está incluído no lema papal o pedido para que todos tenham espaço na construção do país e que estejam assegurados os direitos sociais e religiosos de todos, pois, nas palavras do Santo Padre, “ninguém pode ser considerado cidadão de segunda classe”. Como mensageiro da paz, Papa Francisco disse ainda ao povo iraquiano que toda a sua diversidade étnica, religiosa e cultural não deve ser vista como um obstáculo, mas sim como um recurso precioso e que as diferenças devem cooperar em harmonia na vida civil.

Desde a Primeira e a Segunda Guerra Mundial e das guerras do Golfo, os cristãos iraquianos se viram forçados a abandonar seu país, buscando refúgio no exterior, sendo reduzidos a não mais que 1 % da população atualmente. Hoje, a visita do sucessor de Pedro traz alento e esperança aos cristãos de Bagdá e todo o Iraque, pois “não podemos mais pensar na guerra como solução, dado que os riscos provavelmente serão sempre maiores do que a hipotética utilidade atribuída a ela. Diante a tal realidade, hoje é muito difícil sustentar os critérios racionais amadurecidos em outros séculos para falar de uma possível guerra justa”, como afirma o Papa em sua encíclica Fratelli tutti.

As razões da visita de Jorge Bergoglio ao Iraque trazem uma importante reflexão para o Brasil. Com o tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e o lema: “Cristo é a nossa paz. Do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14a), a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021 exorta-nos para o cuidado mútuo, para o respeito às diferenças, para o diálogo, observando nossa condição de hoje como um tempo de polarizações, fanatismos, insegurança, individualismos, fragilidades sociais, além das desigualdades e fome, agravados pelo fenômeno da pandemia da COVID-19. Tal qual o Iraque, o Brasil necessita, à luz da missão salvífica de Jesus Cristo, do pensar solidário, do elaborar fraterno e do fazer abrangente, inclusivo e sustentável. Que a visita do Papa Francisco àquele país traga, para nós aqui no Brasil e para toda a humanidade, a esperança de nos reconhecermos como um só povo, filhos de Deus!

Referências:

https://www.cnbb.org.br/presidencia-da-cnbb-divulga-nota-sobre-a-campanha-da-fraternidade-ecumenica-2021/ Acesso em 06 de março de 2021.

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2021/03/05/papa-critica-interesses-externos-em-1-discurso-no-iraque.htm Acesso em 06 de março de 2021.

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2019-03/papa-francisco-rei-marrocos-documento-jerusalem-papmar.html Acesso em 06 de março de 2021.

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2019-09/jerusalem-recorda-encontro-de-francisco-com-o-sultao.html Acesso em 06 de março de 2021.

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2021-03/papa-francisco-viagem-apostolica-iraque-chegada-bagda.html Acesso em 06 de março de 2021.

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2021-03/editorial-andrea-tornielli-papa-francisco-viagem-iraque-irmaos.html Acesso em 06 de março de 2021.

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