ARTIGO - Um Sínodo para Missão
- pascom9
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Pe. Matias Soares Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Conj. Mirassol - Natal
A Arquidiocese de Natal está sendo convocada e preparada, pelo nosso Arcebispo, Dom João Santos Cardoso, a celebrar e viver um Sínodo. Com o magistério do Papa Francisco, que assume a recepção do Concílio Vaticano II, a partir da universalidade da Igreja, podemos afirmar que “ainda hoje, num momento histórico em que a Igreja se vê introduzida numa ‘nova etapa evangelizadora’, que lhe pede para se constituir num ‘estado permanente de missão’ em todas as regiões da terra, o Sínodo dos Bispos é chamado, como qualquer outra instituição eclesial, a tornar-se progressivamente ‘um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação’. Sobretudo é necessário, como já almejava o Concílio, que o Sínodo, ciente de que ‘o cuidado de anunciar o Evangelho em todas as partes da terra pertence, antes de mais, ao corpo episcopal’ se empenhe por ‘atender de modo especial à atividade missionária, que é a principal e a mais sagrada da Igreja’” (cf. EC,1). Assumindo a eclesiologia da Igreja Local e impulsionados sobre o significado da “Diocesaneidade”, somos chamados à aplicação desta orientação do magistério petrino à nossa Igreja arquidiocesana no que estamos para viver.
A partir da construção que processualmente estamos a desenvolver, motivados e orientados pelo nosso pastor arquidiocesano, podemos considerar três objetivos que devem nortear o nosso evento sinodal, a saber: 1) – A atualização do nosso diretório sacramental e administrativo; 2) – O aprofundamento da nossa identidade, enquanto Igreja Local, considerando a nossa memória e os desafios da cultura contemporânea; e 3) – A abertura à conversão e ao estado de missão permanente, que devem ser testemunhados por cada sujeito eclesial de nossa Igreja Particular de Natal. O nosso olhar deve ser sempre sinfônico. A pastoralidade eclesial é um acontecimento relacional e coordenado, com objetivos e metodologias que fomentam a comunhão e a participação para missão. A nossa Igreja Local já viveu, com o Movimento de Natal, esse tipo de protagonismo. Temos um potencial a ser atualizado com considerações aos novos sinais dos tempos. O discernimento eclesial, com a nossa abertura ao que o Espírito está a dizer à nossa Igreja, com o seu contexto e ordenamentos sistêmicos, exige de todos um olhar a partir da proposta do anúncio e implantação do Reino de Deus (cf. Mc 1, 14-15; Lc 4, 18-19). Sendo assim, reflitamos sobre esses três objetos e finalidades que nortearão as ações do Sínodo.
1) – O Diretório Sacramental e Administrativo: A Igreja, como quaisquer instituições, é um corpo, tem um organismo, necessita de um organograma, de planejamentos, de metodologia de ação, de sistematização das suas ações evangelizadoras. Os sacramentos são os canais sensíveis e realidades através das quais a graça de Deus age e é confirmada na vida dos fiéis. Sem nunca olvidar a sua mistagogia, os sacramentos, mesmo sem limitar a Graça de Deus, continuam a ser na dogmática católica os sinais do amor e da economia de Deus na vida pessoal e eclesial dos fiéis. A sacramentalidade da Igreja tem neles o seu ponto de encontro e síntese. Em âmbito administrativo, vale também chamar em causa a necessária ‘recepção’, em nossa Cúria arquidiocesana da constituição apostólica sobre a Cúria Romana e o seu serviço à Igreja no mundo, a Praedicate Evangelium – Constituição Apostólica do Papa Francisco. Uma roupagem mais evangélica e atualizada precisa ser dada às nossas realidades curiais, numa perspectiva missionária.
2) – Igreja de Natal, o que dizes de ti mesma? Neste ponto, o processo de escuta será fundamental. Todos podem e precisam ser ouvidos. Tanto os que estão entre nós, quanto os que estão nas mais variadas realidades dos nossos contextos e fronteiras. Temos que saber que lugar a Igreja de Natal ocupa no mundo hodierno. Por quem ela é ouvida, ou mais ainda se está sendo sinal do Reino de Deus entre as pessoas? Como está a sua credibilidade? Como está dialogando com a sociedade e a cultura contemporânea? Como as nossas estruturas e agentes eclesiais estão testemunhando a sua relação com o mundo e no mundo? Será que estamos sendo sal da terra e luz dos ecossistemas nos quais estamos inseridos? Será que as nossas práticas pastorais estão eivadas de um “narcisismo eclesial”? A nossa memória história não deveria ser traída! Temos uma responsabilidade de não renegarmos o que já fomos. O magistério do Papa Francisco, que é profundamente ressonante dos ensinamentos do Concílio Vaticano II, é uma linha à qual somos chamados a seguir para nos situarmos e agirmos neste momento da história.
3) – A abertura ao estado de missão permanente: a Igreja existe para evangelizar: “Nós queremos confirmar, uma vez mais ainda, que a tarefa de evangelizar todos os homens constitui a missão essencial da Igreja; tarefa e missão, que as amplas e profundas mudanças da sociedade atual tornam ainda mais urgentes. Evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na santa missa, que é o memorial da sua morte e gloriosa ressurreição” (cf. Evangelii Nuntiandi,14). Esse ensinamento de São João Paulo VI vai ecoar em todos os documentos do magistério consequente. A conversão missionária das nossas atividades é o paradigma e o programa da nossa ação evangelizadora, sacramental e administrativa, como já fora posto na introdução, com a citação da Episcopalis Communio. A Igreja Particular de Natal é chamada a viver um Sínodo tendo em vista esse objetivo fundante dos demais propósitos. Temos que ter presente essa articulação de objetivos para desenvolvermos as etapas e as atividades do nosso Sínodo.
Enfim, esse caminho precisa ser trilhado para que estejamos em sintonia com a justa recepção e hermenêutica do Concílio Vaticano II. Na sua eclesiologia há um duplo movimento: ad intra (Lumen Gentium) e ad extra (Gaudium et Spes). A interpretação e a aplicação dos princípios pós-conciliares exigem essa percepção e preparação de todos os sujeitos eclesiais que estão situados em nossa Igreja arquidiocesana. Necessitamos de uma teologia pública, sem abandonar o cuidado com a nossa identidade interna. Temos que nos abrir ao diálogo com as diferenças, sem cairmos no esquecimento de quem somos (cf. Ecclesiam Suam, cap. III). Para isso, precisamos de uma Igreja que viverá o Sínodo fortalecida pela oração – conversa no Espírito – e o estudo. As nossas equipes de trabalho necessitarão da espiritualidade sinodal e da formação dos fiéis batizados. Não podemos ser uma estrutura empresarial em função de resultados mundanos. O protagonista das nossas atividades precisa ser o Espírito Santo. É Ele o principio anímico e vital da ação evangelizadora da Igreja, ontem, hoje e sempre. Na nossa Igreja Particular, também deve ser. Assim o seja!