
Diác. Paulo Felizola
Paróquia de Nossa Senhora do Ó - Nísia Floresta
Acredito que não seja demais (ré) lembrar que, sem nenhuma dúvida, estamos vivendo uma grave crise socioambiental, a nós revelada pelas catástrofes que temos testemunhado: Grandes enchentes, calor excessivo, frio insuportável, estiagens nunca visto e os grandes incêndios decorrentes. Faz parte, também, dessa crise toda a polarização que vem caracterizando o debate político, a exacerbação do individualismo, do consumismo, da exclusão e do descarte da pessoa humana. Tudo em nome de uma racionalidade perversa que, por um lado, defende e protege as vantagens econômicas e financeiras de um pequeno grupo de privilegiados e, por outro, dificulta e até elimina a vida de milhares e milhares de pessoas que são usadas tão somente como instrumentos no processo de produção ou massa de manobra nessa máquina trituradora chamada mercado. Refletir sobre tudo isso e suas consequências sobre a vida de tudo e de todos é o nosso dever, como igreja e, principalmente como cidadãos e cidadãs do mundo.
Na realidade, o fato é que estamos diante de ideologias que sustentam a obsessão de que, para além de toda a imaginação, o poder do homem deve ser aumentado e para esse homem, tudo o que não é humano é um mero recurso que deve estar sempre a seu dispor. Mais uma vez vemos, assim, manifestada a cultura capitalista: tudo deve virar mercadoria, ofertada e demandada no mercado, para ser consumida.
“Tudo o que existe deixa de ser uma dádiva que se deve apreciar, valorizar e cuidar, para se tornar um escravo, uma vítima de todo e qualquer capricho da mente humana e das suas capacidades.” (Laudate Deum. n. 22)
Logo, o que importa é a maximização do lucro, com o mais baixo custo possível, principalmente o que advém da compra de força de trabalho. Nessa lógica não há espaço para a solidariedade, para a partilha e muito menos para preocupações com a Casa Comum e com os descartados do sistema.
Contrariamente à essa lógica, que na realidade é a própria lógica tecnológica e neoliberal, o Papa Francisco, tem deixado claro, que é preciso combater o consumo capitalista incentivando um mais baixo consumo de mercadoria do que temos hoje. Ou seja, precisamos buscar um novo ideal de vida, segundo o qual a vida seja mais simples e em harmonia com a natureza. No entanto, essa proposta para a sua realização haverá de enfrentar, logicamente, os interesses capitalistas, que tem o consuma como sua essência. Ou seja, é preciso mudar de paradigma e para tal, objetivamente, o Papa, em 12 de setembro de 2019, convidou a todos
“ao diálogo sobre a forma como estamos construindo o futuro do planeta e sobre a necessidade de investir nos talentos de todos, porque todas as mudanças precisam de um caminho educativo para fazer amadurecer uma nova solidariedade universal e uma sociedade mais acolhedora.”
Para que esse novo caminho educativo se tornasse realidade, como nos lembra o “Instrumentum Laboris”, Francisco convidou os representantes da Terra para assinarem um compromisso comum, com o objetivo de reconstruir o Pacto Educativo Global, que na realidade é a concretização de um pensamento que o Sumo Pontífice, em várias oportunidades já havia manifestado e que se coloca na linha do seu Magistério. Assim sendo, para cuidar das fragilidades do povo e do mundo, a educação e a formação tornam-se prioritárias, na medida em que ajudam a tornar a todos a serem protagonistas diretos e construtores do bem comum e da paz.
A concretização do Pacto Educativo global, implica, portanto, em um processo de educação e formação e não em um processo de treinamento. Como um processo de treinamento, segundo Paulo Freire, o processo educacional é apenas uma forma de ensino que reproduz conhecimentos, que não considera a experiência do aluno e tem o professor como detentor de todo o conhecimento. Por outro lado, formar é uma forma de ensino que transforma o aluno em um aprendiz ativo, considerando a experiencia e incentivando a criatividade do aluno. Portanto, treinar é uma forma de ensino que apenas reproduz, enquanto formar é uma forma de ensino transformadora, pois abraça a ampla gama de experiências de vida e processos de aprendizagem, permitindo aos jovens, individual e coletivamente, desenvolver a sua personalidade.
“A educação não se esgota nas aulas das escolas ou das Universidades, mas é garantida principalmente respeitando e reforçando o direito primário da família a educar, e o direito das Igrejas e das agregações sociais a amparar as famílias e colaborar com essas na educação dos filhos” (Discurso ao Corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé para as felicitações de Ano Novo, 9 de janeiro de 2020).
Portanto:
“a educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza” (Carta Encíclica Laudato si’, n. 215)
Essa lembrança que nos faz o Papa, revela o quanto é urgente uma mudança de rumo, através de uma educação integral e inclusiva, que seja capaz de uma escuta paciente e de um diálogo construtivo, que inicie processos de solidariedade e transformação, principalmente de consciências e princípios, que permitam às gerações futuras a construção de um futuro de esperança e de paz.