Artigos, Notícias › 01/07/2020

Uma preocupação presbiteral

Por Pe. Matias Soares,
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório – Mirassol – Natal

Estamos vivendo um momento muito difícil. Uma leitura dos sinais dos tempos deve nos colocar diante de desafios, perspectivas e, também, muita Esperança. Esse “direito fundamental” precisa ser comum à vida cristã. Somos um povo de Esperança! Confiamos na Divina Providência; mas sabemos que o pecado original age nas estruturas pelas ações de quem nunca deixa de ser filho de Adão, com suas intenções e seus atos: somos pecadores!

Nós, presbíteros, assumimos a nossa consagração a Deus e a Sua Igreja. Para os que são diocesanos; ou seja, vinculados a uma Igreja Particular, mesmo sem fazer determinados votos, como fazem os das ordens religiosas, devemos viver os Conselhos Evangélicos. Estes são vias para testemunhar a nossa consagração ao Reino de Deus, sendo para o Mundo sinais de seguimento radical a Jesus Cristo, casto, pobre e obediente.

Além de tantas outras preocupações, precisamos, como presbíteros, pensar o presente e o futuro do nosso Presbitério. Em alguns momentos, em tempos passados, foi levantada a questão de como será a qualidade de vida da maioria dos presbíteros da nossa Arquidiocese, quando chegarmos em grande número à velhice, num futuro não tão distante. Devemos observar a situação de muitos Idosos das nossas comunidades e pensarmos que, se muitos deles são cuidados pelos seus familiares, quando são, nós seremos “cuidados” por quem?

Na atualidade, a única possível base de sustentação futura será uma aposentadoria, para aqueles que contribuem com o INSS, tendo em vista um “salário mínimo”. Passou o tempo em que alguns conseguiam aposentadorias como professores de universidades, escolas, capelanias; ou pela “estrutura feudal das paróquias”, angariavam recursos para si e até para os seus familiares. Depois que deixam suas paróquias, como é tipificado canonicamente, os presbíteros doentes ou idosos, caso necessitem, devem ser apoiados pela Igreja Particular, já que nunca deixam de fazer parte de um Presbitério. Nas paróquias, como deixam de ter obrigações, deixam também de ter direitos. É injusto querer transferir essas responsabilidades, quando existem, para as comunidades.

É urgente que todos nós, Presbíteros, assumamos o desafio de ter um Plano de Sustentação e o início da construção de uma estrutura apropriada, em qualidade e fisicamente, que nos abrigue na nossa velhice. Talvez esse possa ser um dos grandes sinais de que aprenderemos algo com essa triste pandemia!? Precisamos estar mais conscientes do que nunca. As estruturas de paróquias vão mudar, tanto nas questões econômicas, como pastorais. Não avançamos por bem, agora vamos mudar por força das necessidades e condicionamentos.

Se permitirmos que prevaleça a ideia de fazer um “pé de meia”, com compras de bens materiais, ou confiando só em algum “arranjo afetivo” que alguém possa ter, estaremos nos arriscando em situações muito vulneráveis. Um presbítero será sempre um presbítero, quando abraçou realmente o chamado de Deus por vocação. A lógica do individualismo, que é bem contemporânea, não terá como oferecer segurança a alguém que tem por marca da sua “espiritualidade” a colegialidade e uma mentalidade comum, que foi formatada desde os tempos seminarísticos. Por mais que os fiéis nos apoiem em tantos momentos, é na convivência presbiteral, sejamos jovens ou idosos, que nos associamos fisicamente e mentalmente.

Esse propósito tem que ser assumido por todo o Presbitério. As situações de “injustiça” imperam nos Presbitérios de forma escandalosa: alguns têm demais, enquanto outros vão criando mecanismos de sobrevivência. Alguns Presbitérios não têm moral nenhuma para falar sobre “justiça social”. Todos nós devemos viver com dignidade, mas fazendo uso do justo meio: Isso sim é virtuoso! Não é obrigação do povo de Deus manter situações benfazejas dos ministros ordenados e agregados. Temos que repensar tudo isso, em tempos de pandemia, que nos interpelam, no presente e no futuro. Ou fazemos e discutimos com serenidade e honestidade essa questão, ou teremos muitas dificuldades, principalmente quando formos idosos, que é o que acontecerá com nossa maioria de presbíteros atuais.

Vamos levantar essas questões nas bases presbiterais, nos pequenos grupos, zonais, vicariatos, até levarmos a preocupação para quem tiver abertura de coração para assumir um “projeto” desse. Vamos rezar e fraternalmente conversar sobre esse problema. Assim que passar essa fase tão difícil de tantos questionamentos e inquietações, vamos juntos nos unir em função deste propósito tão importante para todos nós e o nosso futuro. Quando rezamos e pensamos juntos, sempre conseguimos construir o que Deus espera de nós. Isso é “sinodalidade presbiteral”. O Espírito Santo vai agir, se nós assim o permitirmos.

Meus irmãos, tomem isso como uma preocupação, que acredito que muitos de nós temos. Minha intenção é que, juntos, pensemos no nosso bem e no nosso futuro. Sempre tive essa inquietação e, nesses últimos meses, acompanhando a situação de tantos idosos, fiquei a pensar e sentir como seria difícil não ter uma base de sustentação integral e integrada, depois de tantos anos de serviço ao povo de Deus, com nossas fragilidades; mas também, com nossas virtudes. Peço que acolham com espírito fraterno e de fé essa inquietação. Assim o seja!

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